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Meus últimos amigos mortos - Robisson Sete

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Meus últimos amigos mortos - Robisson Sete

 

Título                                                Meus últimos amigos mortos

Autor                                                Robisson Sete

Apresentação                                  Sergio Bento

Prefácio                                           Enzo Banzo

Revisão Ortográfica                        Cleusa Bernardes & Luana Fidêncio

Projeto Gráfico                                Thiago Carvalho & Robisson Sete

Ilustrações                                       Matheus Bruno Neves

Foto do autor                                  Humberto Oliveira Prado

 

Formato 14cmx 21cm - Orelhas 10cm

Miolo papel 80g - Ilustrações PB - 128 páginas

Editora Subsolo 2020

Por Sérgio Bento

Professor de Literatura - UFU

 

Há uma cepa de artistas que, ao longo dos tempos, insiste na busca pelo belo a partir do supostamente abjeto, transformando o censurável em substrato, torcendo o tabu sobre si mesmo, totemizando o que costuma ser recalcado pelos filtros sociais e culturais que tanto nos rondam.

É em tal (anti-) tradição, de, por exemplo, João Antônio, Roberto Piva, Plínio Marcos e Rogério Sganzerla, que Robisson Sete se insere com este “Meus últimos amigos mortos”, que ora se apresenta desnudando o corpo – tanto aquele escatológico, sexual e perecível, cuja matéria é sempre antídoto em tempos de dominação biopolítica – quanto aquele virtual, nascido na e da linguagem, código em carne perenizado em poesia.

Nessa “opera totale”, verso, narrativa e dramaturgia se alternam para dar conta de uma verve expressiva da experiência urbana, do “deus-rua” que, mais que paisagem, é personagem, e mais que metáfora, é organismo, marcos de memória que guiam a própria identidade lírica. São Paulo, Rio de Janeiro, Uberlândia, Sodoma, Pasárgada.

A cidade, tecido vivo do coletivo, oscila aqui entre a boca do lixo e o locus amoenus, onde pessoas, drogas, arte e lixo convivem sem qualquer hierarquia ou mesmo distinção: o objetivo é cavar a margem, e cavar à margem, de onde referências underground pululam ao leitor em rica teia dialógica com ícones pop e elementos eruditos, fricção de universos diversos que surpreende e intriga, mas não se rende à banalização espetaculosa que certa “arte cult” empreende ao levar-se muito a sério.  

Não há como ficar impassível a cada virada de página neste volume imprevisível e intenso, ao mesmo tempo heterogêneo e orgânico, calculado e caótico, todo construído a partir de uma marcante voz autoral: a do poeta que cruamente “te pega pela garganta já na primeira linha”, sem, porém, jamais perder a ternura: “eu te espero na última página/ ansioso/ como quem busca/ o filho/ na porta da escola/ no primeiro dia de aula”.

#

Prefácio

Enzo Banzo

Músico e escritor

A língua rija, à beira da queda

 

     Robisson Sete está sentado no balcão do bar mirando a mesa de sinuca. Entre o taco e a caçapa, a vida. Ou a morte. Observa o fundo do copo americano pela metade. Repara nas guimbas de cigarro arremessadas no piso de cimento grosso e cinza. Olha pra baixo? Não, pro fundo. No talo.

     Entra no jogo, minucioso movimento desmedido, alguém tem fogo? Preciso acender esse bolão. Quer a bola para fora dos limites da mesa. Sobretudo, para baixo da mesa, sob o chão. Não para escondê-la, mas para revelá-la, em algum vão entre o subsolo e a margem. Cavar o buraco onde mora o que se esconde, a voz do morto que grita porque não sabe que morreu, embora suspeite que não é mais desse mundo. Ou nunca foi. Dente que falta na boca do mendigo. Meu amigo. Morto.

     Levanta, vasculha o ambiente, quer encarar o ponto sem luz do olho do mistério, sua matéria, bruta.

O sol fraco e alaranjado projetava uma luz pálida e turva na parede do botequim, iluminando a já descascada inscrição, “Deus é fiel”, entre pôsteres de cervejas e de mulheres seminuas.

     Aleluia. Tá no inferno, abraça o diabo. Ou a solidão ou o delírio ou o sexo ou o ódio ou o amor ou a loucura ou o fim. Ou tudo e o troco, enquanto a vida morre.

     Robisson Sete observa o cigarro virando cinza, som do taco na bola na caçapa, tiros no quarteirão. Destemido, escorado no balão, finge que escreve um poema no guardanapo oleoso, caneta em riste, enquanto

 

pinta em tinta a óleo de fritura quadros que emanam a mais exata trilha sonora.

Arrasta sua sandália de odalisca triste pelo asfalto

Os cachorros de rua latindo raivosos à minha passagem

     Fotografia do movimento, texto-imagem. O "s" sussurro da palavra que sopra no chão, a sandália canta, poema-som. O olho da odalisca só não pisca porque chora. O "r" canino que rosna. Quem sou eu que passo e arrepio a raiva do Cão? Eu sou o silêncio. Eu sou o verbo. Desce a pé em liturgia sob as parcas luzes da Avenida Monsenhor Eduardo, ingresso na mão para o show de JC e seu Bando na Hell's Club. Eu sou o caminho, novo hit da rádio clandestina, show de rock, baile funk, grito punk: tá na paz?

     Lugar da literatura, submundo. Roupa barata, música dos ambulantes, ratos, moscas e pessoas: vida apodrecendo a olhos vistos. O escritor é um batedor de carteira das palavras roubadas no lixo. A língua rija, faminta, tesa. Erguida à beira da queda. A poesia não vende?

compremos então um naco do coração do poeta,

enegrecido pela fumaça do cigarro e embrulhado em papel de pão

     Não se assuste se, em meio à leitura, este livro começar a arder em brasa sob seus dedos. A palavra rasga, a palavra fere, a palavra ferve, a palavra queima.

põe gelo, mertiolate

e antes que

morra de desejo

mate-o

#

 

África

 

vou-me

embora

para

a África

 

lá será

minha Pasárgada

torcer por

Gana e Eto'o

 

e renascer

na terra

onde morreu

Rimbaud

#

Ferro Velho 451 (trecho do conto)

 

Hoje

 

          – Corta o dedinho do pé.  

          – Não, não, eu conto Vladimir. Eu conto.

          – Pode cortar, agora vai contar de qualquer jeito.

          Muniz aperta os cabos em alavanca do alicate, tremendo os braços pra infligir mais força no movimento, arrancando, como se fosse o duro talo de um broto de flor, o dedo mindinho do pé esquerdo de Clemente que, como uma pequena fruta sangrada, despenca na terra. Imobilizado, ele grita de dor, desesperado, baba e urra, expelindo ar e fúria, com uma vontade acima da que supunha suportar seus pulmões. Toma um soco nas costelas enquanto o tenente Muniz enfia em sua boca um amontoado de estopa suja de sangue. 

          – Te disse, Clemente, que dessa vez seria a última. Você vacilou, meu compadre.

 

 

Ontem

 

          – Cara, não me liga mais, eu já tô fora da cidade. Deu merda, eles vieram atrás da minha mãe. Porra Clemente, que merda cara, eles mataram a cachorra dela, na paulada, logo de manhã, acordaram a velha dando paulada na Beth. Puta que pariu cara. Depois jogaram a cachorra morta dentro da caixa d’água do jardim.

          – Porra, Bonfim... eu...

          – Não me liga mais, Clemente, se vira daí mermão. Até.

          – Bonfim, eu... Bonfim... Bonfim? Merda.

 

 

Anteontem

 

          – O Clemente tá aí?

          – Não, não vi ele hoje.

          – Não mente pra nós, mulher.

          – Eu não vi. Juro.

          Dentro do barraco mal iluminado, duas crianças de piscantes olhos angelicais, sentadas num colchão com os braços levantados, como se fossem pequenas louva-a-deus, observavam a tudo inocentemente.

          – São filhos do Clemente?

          – O menor é.

          O policial parado na soleira da porta olha o interior do barraco. Sem dizer mais nada dá as costas e caminha de volta para a viatura.

 

 

Cinco dias atrás

 

          – Bonfas, cê tá de brincadeira comigo cara.  

          – Não, Clemente, eu tô te falando, vai chegar cara, ontem deu problema na rota, os caras tiveram que dormir na estrada, entendeu? A polícia estava fazendo posto na BR. Não quiseram correr o risco. Já falei com eles hoje mais cedo, pelo radinho. Tá tudo certo. Tão chegando.

          – Bonfim, seu filho da puta, se essa porra não chegar aqui hoje, cê tá fudido comigo.

          – Olha Clemente, não vem esculachar, tô fazendo tudo pra dar certo. Vai pra casa que você ganha mais. Cuidar da tua mulher e dos teus filhos.  

          – Eu só tenho um filho e não fala da minha mulher, seu fudido.

#

 

Liturgia na Avenida Monsenhor

 

… Jesus

 

          Jesus era filho de pais separados. Aquela coisa, Playstation e colchão na sala. Nasceu d’um namoro relâmpago entre o então estudante de curso técnico profissionalizante em marcenaria e a colegial do 2º ano. Quando o moleque foi crescendo, as dificuldades e a precocidade do casal puseram fim à relação. Desde então, o pai sempre aparecia nos fins de semana e ficava tentando encoxar Maria no fundo de casa, ou em algum canto. Quando não discutiam por motivos diversos.

          Jesus não se parecia com o pai e pairavam algumas suspeitas por parte dos parentes de José. O pai era moreno e Jesus tinha lindos olhos azuis e cabelos loiros. Mas José não estava nem aí, gostava pra caralho do moleque.

          É que os dois são muito diferentes na fisionomia – diziam.

          A mãe nunca foi questionada sobre a paternidade, mas com seu humor e temperamento peculiares responderia à questão:

          –Lógico que é de José, eu era virgem, porra. De quem seria o filho? Do Espírito Santo?

 

          Agora com vinte e poucos anos, Jesus tem uma enorme banda bicho grilo, com integrantes que só querem saber de fumar maconha, beber vinho e tocar violão. Certa vez, tomaram tanto ácido que ficaram quarenta dias perambulando pelo deserto tendo visões e mais visões.

          Jesus curte muito um roqueiro antigo, Abraão, que morreu na década de setenta, sufocado pelo próprio vômito, depois de cheirar e tomar todas no auge da carreira com apenas 270 anos.

          A namorada de Jesus, Mary Lena, é daquelas fanzocas de músicos de bandas que não podem ver um cabeludo barbudo que já fica toda interessada. 

          O grupo ainda nem tinha o nome de JC e seu Bando, quando um empresário muito esperto, percebendo o talento e o carisma da rapaziada e a possibilidade de sucesso e grana no bolso, pintou na área.

         –Meus amigos, vocês estão feitos, prontos pra explodir nas paradas, da Babilônia a Jerusalém. Venham comigo que vou fazer vocês grandes. Confiem em mim. Muito prazer, meu nome é Judas Iscariotes.

          Assim começou a carreira de Jesus.

          Seu primeiro hit foi “Eu sou o caminho”.

 

 

… O Papa

 

          O Papa fazia um som pop mela-cueca, bem fácil, participava de programas de auditório e cantava no playback. Saía na capa das revistas da moda e comia as dondocas de TV. Fazia campanhas publicitárias milionárias e vendia sua imagem de bom mocinho.

          A Banda do Papa teve outro vocalista, até um tempo atrás, o bom e velho Johnny Paul, muito adorado pelos fãs. Quando ele morreu foi uma via crucis ao seu enterro, e, ainda hoje, os fãs se dividem entre a obra do antigo e do novo vocalista.

          A gravadora, numa esperta jogada de marketing, não querendo perder a galinha dos ovos de ouro e os dólares no bolso, lançou um concurso em um programa de TV dominical para escolher o substituto de Johnny Paul. Pela internet a votação bateu recordes de participação e o escolhido pelo público foi o figura Chick Bent, um descendente de alemães de olhinhos azuis e esperto na dança da pélvis.

          Mas Chick Bent não se adaptou à vida do show business musical. Tinha uma alma fundamentalmente careta e apegada a questões morais. Orgias com groupies e festinhas na casa de traficantes não lhe interessavam. Ele não tinha o espírito (santo) do rock’n’roll.

          Enfim, a Banda do Papa hoje tenta se reerguer com seu sucessor latino, o vocalista Francis Kool. Torcedor hooligan de times argentinos de futebol e ativista das causas tangolescas, afirma ser Carlos Gardel seu símbolo sexual máximo e não se desvia de perguntas levemente picantes em entrevistas.

          Em algumas biografias não autorizadas, autores afirmam que Johnny Paul foi morto pela CIA, assim como Kennedy, Morrison, Lennon e Abelardo Barbosa, o Chacrinha.

… Deus

 

          Deus vivia no ABC Paulista e mesmo já bem coroa ainda ostentava nas ruas a moda punk, coturno, camisetas rasgadas, alfinetes nos mamilos e um moicano meio ralo. Não perdia a oportunidade de dizer, com a propriedade que só ele tinha...

          – There is no future and God isn’t dead.

Afirmava ainda, orgulhoso, ter inspirado uma das melhores músicas dos Sex Pistols, mesmo nunca tendo conhecido pessoalmente a Rainha.

          Deus mora numa quitinete financiada e nunca teve filhos. Não sabe quem é seu pai e não tem lembranças de sua mãe. Pretensioso, se considera o maioral e não abre mão de ser reverenciado. Dizem que quando jovem era muito talentoso para as artes, mas depois de alguns problemas com a polícia e de passar dois anos num reformatório por conta de assaltos mal sucedidos, Deus se rebelou contra a sociedade abraçando a anarquia. Defecou em praça pública, quebrou orelhões e montou seu grupo de punk rock sem nome, compondo músicas de três acordes para trombetas.

          Deus é um metalúrgico punk do ABC Paulista.

 

 

… O Diabo

 

          O Diabo gerenciava uma boate barra pesada, o Hell’s Club, e dizia ter sido amicíssimo de Elvis em sua fase final, gorducho e entupido de pílulas. Quando o Rei morreu, sentadão na privada, foi o Diabo que puxou a descarga.

          Suas preferências musicais e influências vinham do blues e do rock dos anos 1950 e 1960; Robert Johnson, Muddy Waters, Carl Perkins, Stones, Cream e toda essa turma. Sua indumentária básica incluía, quase sempre, brilhantina e jaqueta de couro. Pequeno topete muito bem penteado entre os polidos chifres brilhantes. Tinha toda a coleção original dos quadrinhos de Robert Crumb.

          As melhores bandas, tanto as já estabelecidas quanto as iniciantes, passavam pelos palcos do Hell’s e tanto Jesus quanto Deus eram figuras fáceis de serem encontradas nas festas.

          O Papa pintava às vezes, mas diferentemente de Deus, que cuspia no chão ao entrar, ele já fazia um disfarçado sinal da cruz.

          O Diabo fumando um cachimbo estufado de maconha sussurra, Coroinha carola, observando Vossa Santidade se aproximar.

          Entre os ilustres frequentadores do Hell’s Club circulavam Keith Richards e o Rabino Henry Sobel, que, como vários outros convidados, bebiam de graça. Suas alminhas já haviam pagado os tragos.

 

Roteiro de peça teatral sobre o eclesiastes roqueiro para apresentação em inferninho na Av. Monsenhor Eduardo.

#

Quando veio ao mundo
era noite, era o começo da madrugada
e pelas horas que se seguiram
na avenida principal
os cães ladraram com mais raiva
para os carros e luminosos
 

prostitutas fizeram juras de amor
durante toda a ronda noturna 
para elegantes desconhecidos
 

o bêbado Arnaldo Felix, espancado por ladrões
nos fundos da igreja matriz 
perdeu a visão de um olho e ficou manco da 
perna esquerda para o resto da vida
 

uma mulher matou o marido que a agredia
cortou os laços com a família e se mudou com o filho
pra algum lugar e nunca mais ninguém ouviu falar dela
 

a greve dos lixeiros teve início
e a cidade fedeu merda e gordura
por sete dias seguidos

 

tudo isso no dia em que veio ao mundo

 

nesse dia
um filho voltou pra casa
para o último ajuste de contas com seu
pai morto há vinte anos
 

amanhecendo da noitada, sob o vapor da aurora
jovens se abraçaram, loucos de bala         

pensando numa negra Coca-Cola
escorados nos muros velhos da Rua Havana              

às oito e quarenta e sete da manhã                                                        
 

durante a missa daquela manhã
a rótula ou algum osso do joelho do padre
se partiu, subitamente, frente aos olhos 
aturdidos dos devotos, depois da terceira homilia recitada                     

o que foi entendido por alguns como algo infernal e inexplicável                                            

 

no dia em que veio ao mundo

 

era uma quinta feira 
e o asfalto quente 
ardeu durante todo o dia
como uma ferida infeccionada
na testa febril 
de um presidiário à beira da morte
esperando sua última visita