Caleidoscópio Ancestral - Gabriela Luz
Chegou-me o convite para apresentar esse livro de poemas, “Caleidoscópio Ancestral”, de Gabriela Luz, e poucas horas depois busquei meu assento metade em flor de lótus com um lap top entre as pernas e meus olhos começaram a perder previsíveis avistamentos instantaneamente substituídos pela sensação de que... não lia palavras escritas. Não as via tais como são.
Comecei a tentar entender o que estava acontecendo e o que eu sentia, ou como e o que antevia delas. Nesse misto sensorial/racional fui rolando a barra lateral indicada, inicialmente, não sei porque, me sugerindo de cara uma experiência de pensamentos que respiram (Título modesto do fenômeno) numa frequência ou equilíbrio perfeito, que por outras quadras e títulos, evoluem para largos contornos femininos em maioria intrínsecos.
Que giram ou exalam como nucas, pés e baixo ventre espalhando humores, juízos e amores sensusexuais, não misturados, mas fazendo parte de outros elementos da natureza interior, e da exterior como chuva. Ovulações, ventos, sopros, tempestades, de chuva e de expectativas, insetos desesperados, sofrência de passarinho, manga madura, estações do ano e oceanos, e isto, o mais fantástico de tudo; Definitivamente toda imagem imaginada começam dentro de um ser mulher em estado de amor sincero e pleno mais recorrente nos nossos “ verdes anos”.
Aliás, Gabriela explicita quatro amores com esse “gosto” ou frescor do primeiro, todos sábios, intranquilos e perfeitos. 7As leituras me trouxeram um prazer acho que urdido no imaginário de algum conceito de muitas teses a respeito do ser feminino em equilíbrio nesse mundo. Equilíbrio pulsante, ondeante, ambiental.
Existe uma liga ou jogo de silhuetas e naturezas, oculares, epidérmicas e menstruais, deixando para o fundo dos verbos o contato com o que é masculino, que ELA atrai para as alegrias e os sofrimentos, escandalosos ou sutis, e ainda que diferentes, de todo o existir de todas as coisas. Em dado momento eu ri por dentro imaginando quase todos os poetas e também escritores do início do século XX lendo o livro da Gabriela Luz.
Em sua obra Simone de Beauvoir os disseca em estado de pavor diante da mulher como ser social e cultural, mas não só pelos motivos que se costuma apontar, ancorados na sua sociobiologia gestadora, algo que em certa clivagem da cultura primeiro os atordoou, quem dirá quem de todos os tempos disse e diz que tudo isso de poesia é bobagem.
Mesmo os poetas citados nos categorizavam como seres “tolos, irracionais e misteriosos”! Se lessem a Gabriela Luz, creio que sairiam correndo e só parariam se fossem atropelados por algum veículo emblemático da sua superioridade cognitiva, assim desmascarada. Essa poesia telúrica e também onírica mostra que somos ou deveríamos ser sentidoverbo. Longa vida a Gabriela e à sua poesia!
PS: Por traços muito pessoais tentei fazer um paralelo entre dois poemas deste livro: “Desgoverno” e o outro, sem título, que é uma proposta de conversa de uma mulher chamada Gabriela com Jesus. Tentei! Juro que tentei! Do primeiro fiz mil anotações questionadoras do posicionamento da poetisa ao centralizar em si toda guerra e paz sob o conceito de que, tão 8uma, só tivesse uma arma válida para ... sendo direta, enfrentar a guerra dos homens... “quebrando o mundo à espreita com um jeitinho bastante malemolente”. Parei com a proposta porque esse tipo de discussão, assim, digamos, poético-conceitual, ou ideológica mesmo, exige uma mesa de boteco, água bramosa e tabaco e, mesmo com máscara anti pandemia genocídica seria negligência fazer isso atualmente, ainda.
Com o segundo poema, daqui de antigas solidões que aprendi a transformar em solitudes, decidi primeiro exorcizar por acordo tudo o que se possa desconfiar das passagens sagradas das bíblias, menos, ao menos aqui para dialogar com a poeta e seus leitores, aquele mistério contido na boca de Jesus na sua última inequívoca agonia, ao ver sua mãe protestando em lágrimas contra o caminho e o final que ele fizera de sua vida à morrer daquele jeito, ao dizer, sinalizando com os olhos e a cabeça para ela e o seu então discípulo João, ao lado dela: “Mãe, eis aí o teu Filho, Filho, eis aí a tua Mãe”.
Sim, pode ser que tamanha natureza amorosa não tenha existido e tenha sido inventada, tenha sido uma fake news. E tudo bem se algum mistério ainda mais assustador nunca nos tivesse separado entre “um de dentro” e “um de fora” e também virado pelo avesso toda a amorosidade, beleza e alegria contidas na diferença, esta que, de fato, perece que é sempre, para o bem ou para o mal e além de ambos, uma “coisa feminina” que funda, ou detalha.
Tânia Martins
Copyright © 2022 Todos os direitos reservados à autora.
Título: Caleidoscópio Ancestral
Autora: Gabriela Luz
Apresentação: Mel Duarte
Prefácio: Tânia Martins
Ilustrações: Jéssica Ribeiro
Revisão e Preparação de Texto: Cleusa Bernardes
Editoração e Projeto Gráfico: Thiago Carvalho
Imagem da capa e Fotografia: Larissa Dardânia e Bruna Freitas
Editora Subsolo
www.editorasubsolo.com.br
Uberlândia (MG)
Conselho Editorial: Cleusa Bernardes, João Carlos Biella, Robisson Sete, Sergio Bento, Thiago Carvalho
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
L979c
Caleidoscópio Ancestral Luz, Gabriela
1ª edição - 96 págs. - Uberlândia - Minas Gerais 2022
ISBN 978-65-88075-33-3
1. Poesia 2.Literatura brasileira II. Título.
CDD B869.1 CDU 82.1
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