Incômodo Cotidiano - Alanna Fernandes

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Incômodo Cotidiano é o livro de estreia de Alanna Fernandes nas telas do Brasil contemporâneo. Poemas e fotografias estão ali cuidadosamente dispostos e convidam olhares sensíveis a uma aventura pelas travessas de um território singular. A cada página, uma cena, um gesto, um poema. Cidades, ladeiras, portais, janelas, correntes. Sobretudo corpos marcados pela cultura habitam as imagens forjadas entre conceitos duros e complexos, expondo uma lírica própria da sensibilidade inquieta. O país de Alanna é um labirinto em que se mergulha para provocar o sentir, sensibilizar, e pensar: “o que mudou, afinal?”

Na viagem por cenários emblemáticos do passado e do futuro - Ouro Preto, Brasília, o campo a cidade - encontramos a vida e a morte, entremeadas às permanências, desigualdades, aos fragmentos cotidianos de abandono em sujeitos dispersos – Fabrício, Laura, Seu Joaquim, entre escravos, nordestinos, mulatas, vadias etc. Atravessamos a História entre suas linhas críticas, ácidas, indignadas em relação aos nomes célebres da política nacional e à situação de dependência aos desmandos do capital nacional e internacional. “Nuestro norte es el Sur!”

Liberdade, democracia, educação, utopia, distopia, Estado, criminalização, consumo são termos que aparecem entrelaçados às imagens de corpos marcados pela localização de sexo-gênero, de classe e de raça. Corpos que se exibem nas telas fotográficas, ora enviesados nas janelas, ora ambulantes nas ruas, ora dormindo largados nas calçadas: “Trabalhar todos os dias até faltar ar? Entre colchão e... Qual o chão?” As imagens contracenam com os textos, os cookies, as “guloseimas de merda” do sistema de “amores” e “sabores”, cuja validade, pra ela, “venceu”. Venceu? Mas a poeta não se deu por vencida.

Na poesia de Alanna, os conceitos da ciência, como suas interrogações, também não se aquietam e insistem em invadir o alfabeto de sua lírica. Raça, divisão sexual do trabalho, feminismo, Pátria patriarcal são noções de que ela se serve para materializar sua sensibilidade mestiça, mostrar sua garra e formular sua luta contra todas as tiranias. Mas também para convidar leitores para as lutas do nosso tempo, para desfrutar dos “cheiros cotidianos contemporâneos”. “Qual a sua crença? Qual a diferença? Você faz a diferença, Para, senta e pensa!”

Sua lanterna crítica, ágil, como seus olhos, mira espaços e relações globais, regionais, locais, e também micro espaços mais ou menos silenciados, escondidos ou insistentemente revelados do cotidiano. A piada, a roupa curta, o estupro, a aborteira, a homofobia, o medo, a compaixão, o analfabetismo, a alienação, a dor. Alanna fala sobretudo de sua dor, a dor do “ser sendo”. “Será que sou o que sou? (...) Um ser sendo sem ser, se há sem cercear...” A poeta segue o dito da avó: “(...) Que nunca falte alimento pro meu ser se alimentar de incomodar”.

Seus discursos nos comovem, deslocam, ensinam, reanimam! Nada disso será em vão, Alanna! Prossiga suas andanças, poeta das palavras, das imagens, de visibilidades que se querem invisíveis, dos sons e das dissonâncias, dos sentidos, instáveis, controversos, em desdobras... Atravesse os mares inconstantes da sua/nossa história, inverta todas as regras, percorra seu caminho. Incomode, Alanna, invada todas as praias com seus versos, todas as ruas com suas lentes, desinstale a dor do mundo, sempre!

Maria Elizabeth Ribeiro Carneiro

Professora do curso de Letras (UFU)

 

 

Quando Alanna e eu tivemos nosso primeiro profundo contato, na fila de um restaurante universitário, éramos jovens iniciando nossa busca dos porquês dessa realidade tão contraditória. Seguros de que algo não estava bem e esperançosos de outras possibilidades para nosso mundo.

Hoje, anos mais tarde, ao percorrer estas páginas que seguem, percebo que o mergulho dessa poetisa tem sido grandioso. Afinal, vincular política internacional à arte de ver e ouvir, não é tarefa fácil.

Palavra quando se vincula à poesia tem poder.

Imagem munida de povo tem força.

O Incômodo Cotidiano de Alanna Fernandes é força com poder de transformar nosso olhar.

Agulha afiada que, sem aviso prévio, pode romper sua bolha de conforto. Chute para fora da zona.

Você se arrisca ao abismo social da realidade?

Pule sem medo! Lhes asseguro que ao final sentirão correr, pelas mãos e por todo corpo, a energia que temos para transformar o Agora que se apresenta ao nosso redor.

Até que sejamos nós, todas as pessoas, livres!

 

Anderson Pereira Santiago

Escritor

 

Incômodo Cotidiano - Alanna Fernandes

Editora Subsolo - 2018 1ª edição

Uberlândia (MG)